Sem saber como, nem porque, ele sentira-se pleno desejo. Com a aura e todos os elementos cósmicos-espirituais que a compõe em êxtase, como se um sentimento pungente palpitara-lhe o coração. Nada mais importava naquele dia a não ser a forte e louca paixão que agredira sua mente e seu corpo nas mais recentes horas, ficara embasbacado com a voracidade com que tal sensação agrimara-se em sua existência. Não há nada que se compare ao benfazejo que aquele momento proporcionara-lhe.
Envolto pela felicidade ciméria que acalantara sua alma decidiu-se rapidamente por jamais voltar a ostentar a triste aparência que acompanhara-lhe durante anos. Tinha certeza de duas coisas: Naquele momento entendera realmente de onde vinham os prazeres mundanos e o bem que poderiam proporcionar-lhe; Além da certeza que o sentimento que alcançara há pouco seria eterno.
“Amanhã será eterno”, repetia ele, obstinado, durante todo o percalço do seu dia, de certa forma sentia-se obrigado a manter viva dentro de si a alegria estapafúrdia que invadira-lhe o peito. “Amanhã será eterno”, insistia. Nada seria capaz de desvirtuar seu pensamento, nada seria capaz de tirar a excentricidade proporcionada pelos sentimentos mais triviais e belos que sentira. Nem mesmo ELA seria capaz de estragar tudo. “Amanhã será eterno”, balbuciava ao passar pelas pessoas no corredor do prédio, ao entrar no elevador, na porta de sua casa, na cozinha.
“Amanhã será eterno” e orava antes de dormir, enquanto observava seu quarto, seu apartamento, e tudo que lhe prendia a vida de antes. Agora nada daquilo o pertenceria mais, seria tudo deixado para aqueles que quisessem como recordação daquele velho que não sentia as emoções que manifestaram-se dentro dele doravante. “Amanhã será eterno”.
Tinha certeza que amanhã todos ficariam com sua nova imagem, todos perceberiam que agora era um homem feliz, completo. Afinal, quais os amigos que não queriam vê-lo fautoso como estava. “Amanhã será eterno”, repetia psicoticamente mesmo durante seus sonhos – sim sonhara com isto – e neles não era de se esperar que acontecesse o contrário, também sentia-se esplêndido. Queria – mesmos nos sonhos – que o mundo soubesse o quão era satisfatória aquela sensação, aquele anseio louco de que amanhã seria eterno.
E assim o fez: acordou disposto e feliz, preparou bem a cena e enforcou-se na sacada do apartamento. O corpo ficou dependurado de fronte à rua, para que todos pudessem ver o quão estava contente em realizar sua morte. Queria que todos vissem que a imagem despercebida do rapaz tímido fora trocada pela fantástica imagem do maníaco suicida. E hoje é eterno.
“Naquele dia Dante optara pela solução mais lógica e prática para seus problemas. Sentiu-se absolutamente completo e sabia que nada mudaria sua decisão; Livrar-se em definitivo dos seus problemas era tudo o que queria. Assim não o taxariam mais de covarde, de corruptor. Assim ELA sairia da sua cabeça e definitivamente da sua vida. Assim não precisaria mais prestar contas a ninguém sobre suas atitudes.
Dante aceitou o fato de morrer porque entendeu que era o caminho mais fácil; Morrer é muito fácil. Já que, vivo, não suportava seus problemas, morto seria fácil solucioná-los. Dante enforcou-se e mostrou a todos que a morte é o melhor caminho, queria que todos entendessem que morrer às vezes é a única coisa que nos acalma e o quão boa é esta solução.”